3 ACTORES À PROCURA DE UM PAPEL
Os actores são João Cabral, Oceana Basílio e Ângelo Torres
Com texto de Joaquim Paulo Nogueira E encenação de Joaquim Paulo Nogueira e Jorge António
Dias 30 e 31 de Março no Nacional Cine Teatro (Chá de Caxinde) às 20h30 - LUANDA, Angola
Bilhetes à venda a Kz 2.000,00
A manhã do Balumuka! (ou como o linguajar do Mwangolê se antecipa ao dicionário) - Eh pá, emagrace! Emagrece!(1) E logo os outros passageiros do candongueiro(2) se comprimiam para que Balumuka tomasse o seu lugar, no já tão superlotado Táxi. O muadié(3) trazia ainda consigo os vapores etílicos das birras(4) e mambitos(5) da noite anterior, passada na trola(6) de um nguvulo(7). Saiu bodó(8) e no xaxo(9), entre altas passadas(10) e tarrachinhas(11), no galanço(12) dicou(13) a dama(14) e se calhar, até lhe encheu(15). Sim porque o wi(16) tinha sempre grande fezada(17) com as mboas(18), as xkindosas(19), que lhe morrem(20), fruto da manguita(21) e do ar de papoita(22) que tem como imagem de marca. Naquela manhã, “só o perfume do wi”(23) e aquele dizumba malaika(24), eram mesmo sinónimo de disbunda(25)… - Xiça, tenho ainda de ir ao oscar(26) da Tia Miquelina, lembrou-se nesse instante, com ar de chateado, mas logo arrebitou, porque pensou que no comba(27) poderia encontrar o seu kamba(28) Pedro Osório, que até já tinha sido ministro e era bué chegado a outros kotas(29) do Kremlin(30), pois precisava de lhe fazer um kilapi(31) para o ruca(32) que queria comprar, para ir rustir(33) lá no bairro. -Preciso mesmo de tirar água do joelho(34), pensou. De imediato mandou o taxista parar e deu uma sussa(35) mesmo ali, ao lado de um contentor do lixo, onde à sua volta se vendiam tomates, beringelas e carne de vaca, entre o pó e as moscas do caminho. Balumuka não bumbava(36) há mais de um ano, não se mostrava paiado(37), era quente(38) mas estigava(39), era amigo de uns madalenas(40) e alicates(41) e assim sentia-se protegido. Não bumbava, mas tchilava(42) e com este pensamento, feliz da vida, lá continuou a sua caminhada, tilhas(43) brancas, como os dentes que brilhavam no seu sorriso. Balumuka, aiué Mwangolé(44) Mário Tendinha (Luanda, 07/07/2011) Foto: Ana Clara Guerra Marques Glossário: 1- Não encosta 2- táxi 3- pessoa, cidadão 4- cerveja 5- whisky 6- conquistar mulher alheia 7- diplomata 8- festa 9- conquistar uma mulher 10- passos de dança 11- dançar roçando as zonas pélvicas uma na outra 12- engate 13- conquista 14- rapariga, mulher 15- engravidou 16-cidadão 17- sorte 18- mulher bonita 19- namoradas 20- que arranja mulher 21- musculação 22- chefe 23- mau odor, katinga 24- mau hálito 25- festa, farra 26- funeral 27- vigília fúnebre 28- amigo 29- mais velhos 30- “governo” 31- empréstimo 32- carro 33- mostrar 34-urinar 35- mijada 36- trabalhava 37- aflito 38- sem dinheiro 39- gozava 40- polícias 41- polícia da investigação criminal 42- curtia 43- sapatilhas 44- angolano
O grande “relatador” de futebol de tampinhas - o N´Bukiki continua. As nossas casas eram iguais, uma espécie de varanda interior que ligava a sala de jantar à cozinha. Nesse espaço levantavam-se naquele tempo, fantásticos estádios de futebol, desenhados em tapetes verdes, a relva macia por onde deslizavam e se apresentavam as equipas mais badaladas dos idos anos 60, 61, reinventadas nas tampinhas das garrafas de cerveja e refrigerantes, as célebres caricas como diziam no puto. Eram centenas de tampinhas, cada uma com o rosto de um dos mais famosos atletas das equipas da divisão maior dos campeonatos de futebol de Portugal, daquela época, dezenas de equipas de futebol. Cada tostão, sim cada tostão, era religiosamente guardado para que com cada 5 tostões, se fosse à loja, já não sei o nome, ali ao lado da “Pharmácia Portugal”, que ainda me lembro era assim mesmo que estava escrito, para aí se comprar mais uma chuínga, uma pastilha elástica como se diz agora. Cada chuínga trazia um cromo com a foto e o nome do jogador de uma das equipas e havia uma caderneta onde se colavam os tais cromos, só que nós colávamos nas tampinhas, nas caricas e constituíamos assim equipas completas e fazíamos o nosso campeonato paralelo, nos nossos estádios, no Namibe, na nossa velha Moçâmedes, no varandim entre a cozinha e a sala de jantar das nossas casas junto ao parque infantil. Em minha casa jogava-se em Alvalade, e na do Carlitos, na Luz e está tudo dito, quanto às preferências clubistas dos 2 putos, magrinhos, 8 a 10 anos, entretidíssimos nas suas jogatinas, saía discussão e tudo, tás a fazer batota, não foi golo foi sobre a barra, que era imaginária e a Dona Nininha sempre sorridente, com o seu olhar benévolo Carlitos, Márinho, parem um bocadinho, vamos lanchar, comam este bolinhos e tal e coisa e mais o leitinho, era assim, felizes, eu e o meu amigo Carlitos, o Carlos Veríssimo. Mas, o que era diferente de todas as outras brincadeiras dos outros putos, que também poderiam ter os seus campeonatos, era que nós, aliás o Carlitos, acompanhava a brincadeira, cada jogo, todos os jogos, com fenomenais relatos de futebol, que dava uma perspectiva diferente ao jogo, nós jogávamos, assistíamos e ouvíamos a rádio em simultâneo tal era a vivacidade e desempenho do “relatador”, se é que esta palavra existe, víamos a televisão por antecipação, ainda não havia televisão, vivíamos intensamente cada jogada, cada golo, a tampinha mais amachucada seria o Peyroteo com o seu “tiro” potentíssimo que furou até as redes um dia, as malhas da baliza, nem o Costa Pereira a viu, dizia para o chatear e ele com a outra tampinha, especial, tramada para meter golos de cabeça, qual Águas de cabeça e golooooooooooooooo e ficava vermelho, as veias da garganta parecia que rebentavam, tudo tão real e a memória a vir aos tropeções tão viva, reciclada, tantos anos passaram, talvez 50 e eu a ver a cena e esta lágrima chata a espreitar…. Tudo isto porque reencontrei o Carlos, o Veríssimo, nas redes sociais, estou a vê-lo nas festas do fim do ano lectivo, no colégio das madres e agora um momento radiofónico anunciavam e no palco o Carlitos, com um microfone quase do tamanho dele, (um pouco de exagero não fica mal neste texto), a Dona Rosa Bento ao piano e ele a marcar o golo do Coluna ou do Simões, era vermelho até à 8ª casa, e golo, golo, goloooooooooood do Águassssss, Benfica 2, Sporting 0, ele ganhava sempre porque relatava e eu só com a tampinha do Carlos Gomes, nem sempre conseguia defender, apesar de ser o melhor guarda redes do mundo. O Sr. Pizarro e a Dona Nininha aplaudiam na plateia, babados. A malta vibrava de entusiasmo, ele era mesmo bom naqueles “mambos”, ao ponto de passar a ser convidado da emissora local para fazer relatos reais de futebol imaginário e outros, parece que mesmo a sério! Tão bom esse tempo em que os estádios de futebol, os mais importantes, eram mesmo ali nas varandas das nossas casas, entre a cozinha e a sala de jantar. Mas as jogatinas de futebol com tampinhas continuam na nossa terra, os jogadores e clubes são outros, mas como nós os meninos de hoje vibram, deliram com os seus ídolos e chamam à brincadeira N´BUKIKI, mas um “relatador” como tu, nunca mais… Mário Tendinha Luanda, 27 de Junho de 2011 na foto: o "relatador"
E lá foi à tropa o Januário, mas a cavalo! O comboio a vapor, no seu pouca terra pouca terra, ia avançando lento através do deserto, primeiro areia e pedra, depois tímidos arbustos e espinheiras, que foram dando lugar a outras plantas já típicas da savana, ao aproximar-se da Bibala, seu destino. Naquela época o comboio, em 1912, ainda não chegava ao Lubango. O Caminho de Ferro de Mossâmedes, CFM, apenas chegava à Bibala. Ao contemplar essa paisagem que se desenrolava perante os seus olhos, nessa sua primeira viagem, dava-se conta da mudança gradual da flora desde que partira de Mossâmedes. De pé, sentado, as horas iam passando sem tempo contado nesta viagem, o comboio resfolgava e o fumo negro dava conta do esforço que era avançar desde a planície até aos contrafortes da serra da Chela. Garboso, no seu fato amarrotado de linho cru, imagino eu, atento à paisagem, mas com o pensamento na sua bela prometida, certamente, seguia numa das carruagens o candidato a recruta Januário, que se ia apresentar para assentar praça no Lubango. Como o comboio apenas chegava à Bibala, o Regimento do Lubango fazia deslocar à estação da Bibala um destacamento de recepção, chefiado por um Sargento. À chegada, lá estava o Sargento e os seus homens que haviam chegado na véspera, descido a serra a pé, porque afinal até não era tão grande a distância entre o Lubango e a Bibala, aí uns 40 ou 50 km e a descer todos os santos ajudam. O pior seria no regresso, o sol e calor para derreter mais umas banhas do Sargento, sim, porque sargento que se prezasse naquela época, de certeza que tinha umas banhas a mais e subir até aos 2.000 m de altitude, era obra! Depois da chinfrineira dos freios e do metal a travar, da fumarada produzida pela caldeira e do ruído das gentes na estação, meia dúzia de”colonos”, chefe do posto, cipaios de cofió, o Januário desceu do comboio, mas dirigiu-se primeiro a um dos vagões de carga, de onde com a ajuda da populaça, descarrega um cavalo. É que, previdente, o seu pai comprou-lhe um cavalo para que pudesse ter um meio de se locomover e sobretudo, subir a serra da Chela montado a cavalo. Apresenta-se pois, Januário e cavalo ao Sargento, que espantado ficou pelo insólito da situação. - Pra quê que quer o cavalo oh nosso recruta? - Para subir a serra oh meu sargento! E lá marcharam rumo ao Lubango, serra da Chela acima, sob um sol escaldante, farda de caqui, entre resmungos e pragas, olhares ferozes do Sargento que bufava e transpirava e voltava a praguejar sempre que olhava para o bom do Januário, que impávido, montado no seu cavalo, lá seguia contemplando as belezas naturais, qual príncipe da Chela; - Raio do moço, todo fresco e eu aqui a gramar a “butes”, deixa lá que vais ver como elas te mordem quando chegares ao quartel…cabrão do gajo, cum carago! (Acho que o sargento era de Famalicão…) Extenuados, de bofes na boca, chega o sargento e a sua trupe ao regimento do Lubango, só pensando no descanso e na folga a que teriam direito, enquanto o Januário de pronto se preparou e fardou a rigor, estampa irrepreensível do jovem militar daquele tempo, parecendo até estar habituado aquelas andanças. Durante os dias seguintes, bem tentava o sargento fazer a vida negra ao Januário, mas este sempre lhe foi dando corda e o tempo ia passando sem grandes aflições. O Sargento percebeu entretanto, que uma das dificuldades do Januário era a música e pô-lo a aprender a tocar corneta…ai…isso sim, era um suplício para o Januário, pelo menos era o que parecia e lá estava ele de manhã até ao fim do dia a aprender a tocar corneta, sem jeito nenhum, é uma besta este tipo, apanhei-o, tas lixado oh mouro, vais gramá-las e ficas aí até aprenderes. O Januário revirava os olhos, fazia caretas, soprava e bem tentava, mas som que se ouvisse, nada, nicles. E o sargento rejubilava, sorria e cuspia de satisfação, estava aberta a possibilidade de o dar como inapto para aquela superior tarefa e despachá-lo para os confins do Cunene, para Xangongo e assim ver-se livre daquele energúmeno. E o Januário, mal o sargento virava costas, sorria. Finalmente termina a recruta e o sargento bufando, agora de contentamento, solicito, junto do capitão do regimento, durante a apresentação dos resultados, manifesta-lhe a total incapacidade do recruta Januário, que prá corneta não dá nada, o melhor é mandá-lo pró carago de Xangongo e já amanhã meu capitão, que o gajo é insuportável. Dia seguinte, logo pela manhã, o sargento dá de caras com o Januário, que se despedia do Capitão, a cavalo e vestido à civil, mala na garupa, um largo sorriso de gozo, então adeus oh meu sargento, boa viajem oh malandro até ao Cunene e ria-se, nada disso vou mazé pra casa e já agora obrigado oh meu sargento. O sargento desconfiado interroga com o olhar o Capitão que sorrindo, então cá o nosso recruta não ficou inapto? Se é inapto para uma coisa tão simples como tocar a merda de uma corneta, não pode ficar, é inapto para a tropa, vai-te lá embora oh rapaz e dá respeitosos cumprimentos ao Senhor teu pai, meu amigo e companheiro de longas conversas e tardes de crapô. E assim se livrou o Januário da tropa e voltou a descer a Chela, a cavalo e regressou para os braços da sua amada Felicidade. Mário Tendinha Luanda, 25/05/11
CDC Angola - 2011 COREOGRAFIA E DIRECÇÃO ARTISTICA ANA CLARA GUERRA MARQUES CLICAR NA IMAGEM PARA AUMENTAR
ERA UMA VEZ O MEU AVÔ JANUÁRIO Esta história terá pelo menos 100 anos. O que se passou terá sido nos primórdios do século XX na pacata urbe piscatória do meu sul, na época ainda era Mossâmedes, com os dois esses, no tempo em que os netos não davam beijinhos ao avô, que distante, estendia a mão para o beijo da bênção. Será que o meu bisavô terá andado de gatas como eu, a brincar aos cavalos e coboiadas, a imitar danças clássicas de pontas com as netas e a deixar que lhe fizessem “puxinhos” no cabelo? Duvido! Mas a história refere-se precisamente ao meu bisavô Januário António Tendinha e ao seu filho primeiro, meu avô Januário Mendes Tendinha. Era uma vez o meu avô Januário, o tal que jogava Crapô, Carapô, ou ainda Crapaud e que andava com um cigarro Swing no canto da boca todo o santo dia com ele apagado, “através” da asma e da bronquite, que era um homem bom, bem humorado, frequentava o Aero, as arcadas da praia das Miragens ao Domingo e se deleitava com aqueles corpos bronzeados, quais gazelas elegantes do Iona. Um dia o avô Januário, viu uma jovem bem formosa, para os lados do areal da “Torretombo” e aquilo foi fulminante, o jovem Januário perdeu-se de amores e depois de um namoro, primeiro secreto depois, às vistas dos progenitores e irmãs, sim porque na época, nos princípios de 1900, em Mossâmedes, com dois esses, uma população diminuta onde toda a gente se conhecia, era preciso cuidado e as aparências relativamente à sociedade, uma questão a honrar, mesmo casando a jovem com 16 anos como aconteceu, na história que vos conto. A Jovem, viria a ser a minha avó Felicidade, aliás a avó Feliz…pudera, desde os 16 anos a viver uma felicidade tão grande, era de uma muito boa família, Frota, de seu nome. Ora, o avô Januário antes de pedir oficialmente a mão da avó Felicidade, não fosse a barriga dar mostras de algum inchaço, decidiu falar com o pai, o meu bisavô, Januário António, anunciando que queria casar, pedindo a sua bênção para tão importante momento da sua vida, ah pois, o que é que pensam, que naquela altura não se faziam também loucuras? O bisavô Januário António, se desconfiou ou não, uma vez que a moça era uma jovenzita de 16 anos de idade, não deu a entender, querendo antes saber a data que haviam os pombinhos escolhido. O avô Januário lá lhe disse que estavam a pensar casar no dia 10 de Julho, ao que o bisavô arregalou os olhos de espanto e perguntou de imediato se havia alguma razão especial para ser na tal data, tendo o avô Januário respondido que não, que tinha sido apenas a data que tinham escolhido porque lhes parecia a mais simpática e adequada. E assim foi, dia 10 de Julho de 1913, o avô Januário casou-se com a avó Felicidade e o espanto do bisavô foi porque, essa data escolhida por ambos, era o dia de S. Januário e de sua esposa Felicidade e dos seus 7 filhos que foram mártires. Os meus avós, Januário e Felicidade tiveram 7 filhos de facto e 50 anos depois, casou-se a sua primeira neta, filha também de uma Felicidade que me contou esta história de felizes coincidências, enquanto bebericávamos um chá, onde entram Santos e Felicidades e 7 filhos, avó Feliz, Januários e um final FELIZ e, à laia de confirmação e atestado da verdade, me ofereceu um velho Almanaque Bertrand de 1962, onde se pode ler que o S. Januário e a sua Felicidade e os seus 7 filhos (mártires), tinham dia de calendário a 10 de Julho. Ah, a avó Feliz, era Felicidade dos Santos… Mário Tendinha Luanda, 21 de Março de 2011
Tive o previlégio de conhecer o Malangatana, em Maputo nos anos 80. Ele partiu agora, mas deixou-me escrita uma dedicatória, que muito prezo e um desenho, feitos na primeira página e contracapa do seu livro Desenhos de Prisão, que aqui deixo expressos em sua homenagem: "Olá Tendinha- - Colega! De madrugada vovô Gudwana vai chegar, chegar das profundezas lá onde outros vivem, temos aqui os potes de wuputyu para ele bebericar, mas não sózinho, nós também bebericaremos com ele para que os Espíritos cantem conosco velhas canções dos rituais. Ahhh, tambores já estão a roncar para afugentar maus espíritos! Malangatana 26/7/2007"
- .... dirigindo-me ao vendedor ambulante de pão: - voçês hoje chegaram tarde! resposta: - é verdade chefe, chegámos quase à pouco... " a senhora foi a Benguela madrinhar o casamento" na inauguração do Projecto da Mediateca de Luanda, um locuor da televisão TPA: ...estão presentes a Sra. Governadora, os "projectores", os acessores... ouvinte da rádio: - não se ouve bem o rádio aqui, está cheio de ruídos e "rumores"...
..."a conduta de água assenta numas bases que estão a roer"... (ouvinte do programa Táxi Amarelo da LAC) ..." antigamente não chuvava tanto"...(outro ouvinte num programa de rádio depois de um dia de chuva intensa) ..." quando cheguei lá vi um cadáver, já morto" (num noticiário da LAC)
 “O Quarto do Meio” (lembras-te Céuzinha?) Entrava sorrateiramente, boa tarde, para quem quisesse ouvir e direito ao Quarto do Meio, lá ia eu, já semi-montado num dos corcéis, o Fúria, o Brasa ou outro ainda, feito o Cisco, o Bill, o Teddy, um Kid qualquer, cowboy de alguma história, das muitas que ali, em cada fascículo dos almanaques do Cavaleiro Andante, do Mosquito, do Marvel e do Patinhas, voava, por sonhos azuis de céus infinitos, em êxtase, nas tardes mornas trazidas pelo vento do deserto. No Quarto do Meio, lembro-me, do malão enorme de madeira, apinhado de livros e revistas, almanaques encadernados, colecções completas, hoje provávelmente, raras e valiosíssimas. Por onde andarão? Para onde foram? Ou estarão ainda esquecidos no fundo de alguma mala, caixote, esquecidos e tristes. Será que se lembrarão de mim? Olhem, sou o puto que por aí passava para ler as histórias, milhares de histórias, tantas horas, perdido do mundo a viajar, em fantasias extraordinárias, herói e conquistador de tantas terras roubadas aos índios, era o espírito do colonizador que vocês nos vendiam, galanteador e conquistador dos corações de tantas rapariguinhas que se cruzavam na minha vida, pois era sempre assim que terminava o sonho, de braço dado com a tal que era na vida real alguém, uma prima, quanto mais prima…, uma tia, a amiga da mãe, aquela que era a eleita, era uma escolha liberal sem contestação, eram tantas e eu garboso, cavalo empinado, branco umas vezes outras negro com uma pinta no peito, uma estrela branca, pirosa mas eu achava lindo colocar a estrela no sonho, certeiro no tiro, no laço, a derrubar apenas com uma mão os garrotes entre nuvens de pó. Exibicionista era o que eras, dirão vocês, mas este é um assunto apenas entre nós e “prontos”. Mas não, certamente não se lembrarão. O mais provável é terem desaparecido, ou jogados fora como uma velharia qualquer, um monte de papel comido pela traça e ratos, papel sem interesse nenhum, lixo e ainda por cima a ocupar espaço. Mesmo assim, posso garantir que não desapareceram. Ficaram para sempre por aqui, em mim, nesta memória que também se vai gastando, mas que de repente responde ao tempo e lhe prega partidas e de novo, lá vou em disparada num turbilhão, montado no corrimão da varanda da nossa casa da rua 4 de Agosto, a contar histórias aos netos e Moçâmedes para a frente e Moçâmedes e tal e coisa, Tal e qual. Como se ainda estivesse no Quarto do Meio. Luanda, 30 de Agosto de 2010 Mario Tendinha
 Ia o nosso tempo em África e já Manuel Joaquim Frota era uma referência na história de Olhão. A ele se deve a ída para Angola da primeira "Armação à Valenciana" da pesca da sardinha, decorria o ano de 1887. Foi montada em Moçâmedes, seguindo depois para a Baía dos Tigres...." É a parte inicial do texto de homenagem que foi prestada a Manuel Joaquim Frota por cerca de 30 bisnetos e trinetos, frente à sua catacumba, no cemitério velho de Olhão, no dia 7 de Outubro de 2000. No ano seguinte promoveu-se novo encontro, desta vez com divulgação organizada para que a informação pudesse chegar a todos os familiares de norte a sul do País. A resposta excedeu todas as expectativas. Cancelaram-se compromissos e reuniões e no dia 6 de Outubro de 2001, cerca de 100 descendentes do mandador pioneiro, nascidos em Angola encontraram-se, novamente no cemitério velho de Olhão, numa sentida homenagem. A nova geração nascida em Portugal esteve também presente. Manuel Joaquim Frota, nasceu em Olhão no dia 15 de Janeiro de 1838. Em 1887, com 49 anos de idade decidiu fazer a travessia do Atlântico a bordo do palhabote S. José, de Manuel Pereira Gonçalves, levando a primeira "Armação à Valenciana" da pesca da sardinha que Angola conheceu e que foi montada na então Vila de Moçâmedes, hoje cidade do Namibe. Não se sabe o local onde foi instalada, talvez na Torre do Tombo na praia onde foi construído o cais comercial, na ponta do Noronha. Demorou-se pouco tempo por ali e antes de 1893, ano de chegada do meu avô, já estaria montada na Baía dos Tigres. Outras armações foram chegando: a de Lourenço Morgado que foi instalada, provàvelmente no lugar da primeira ou muito próximo, e a de Francisco de Sousa Ganho, montada no Baba. As armações fixas, eram as artes de pesca mais avançadas dessa época e de grande rentabilidade, que fizeram aumentar a produção do pescado naquela zona do litoral angolano. Poucos familiares conheciam a aventura africana deste nosso ascendente. Porque decidiu emigrar numa idade já um tanto avançada para este tipo de aventura? Porque mudou os seus planos de permanência em África? São perguntas que ficarão sem resposta certa, mas um familiar recordava-se que talvez houvesse um motivo forte para o seu regresso a Olhão: lembrava-se de ter ouvido comentar na família, que em dado momento, a minha bisavó reconsiderou o embarque para África, criando dúvidas se lá teria estado alguma vez. O motivo desta decisão talvez esteja nas difíceis condições de vida que o meio sul angolense oferecia naquela época, com relativa excepção para a vila capital do distrito: Moçâmedes. Manuel Joaquim Frota regressou a Olhão em data indeterminada e faleceu no dia 12 de Outubro de 1912 aos 74 anos. A CATACUMBA ABANDONADA Decidi um dia entrar no cemitério velho de Olhão, naquele que é uma das principais fontes documentais da cidade, com arquivo próprio. O funcionário era um simpatizante da pesquisa histórica e prontificou-se consultar os inúmeros registos ao seu dispôr. Dois deles chamaram a minha atenção: a sepultura abandonada de um tio-bisavô, Francisco Lopes Frota e a catacumba, também abandonada que servia de última morada ao meu bisavô Manuel Joaquim Frota, o mandador pioneiro das armações à valenciana. Desloquei-me aos dois lugares onde fiz um breve recolhimento. Francisco Lopes Frota era um dos irmãos mais velhos do meu bisavô e não deixou descendência. Mais tarde, numa visita, constatei não existir mais a pedra da sua sepultura. A catacumba do meu bisavô encontrava-se sem qualquer identificação, só em parede caiada, graças ao zelo dos funcionários. A minha bisavó migrou para Lisboa com a restante família deixando Olhão para sempre, daí não ter podido cuidar da sua manutenção. Existiu uma chapa, posta por um parente meu que tinha um táxi mas caíu e perdeu-se. Há muitos anos era visitada por familiares ligados à minha bisavó, a família Lota, recordava-se o funcionário que manteve uma forte relação de amizade com o meu parente taxista José Sérgio Frota e que nutria por ele grande respeito e admiração por ser um talentoso apresentador de teatro e autor de algumas peças representadas na saudosa sala do teatro velho de Olhão por artistas amadores da cidade. Tive o grato prazer de o conhecer, já reformado, numa breve visita em sua casa, perto de Lisboa, há cerca de 20 anos. Confesso que, diante daquela catacumba, senti-me deveras emocionado. Ali estava sepultado o meu bisavô, um "africanista olhanense" que fez uma viagem épica a bordo de um palhabote e que era pioneiro das armações á valenciana. A sua pele fora curtida pelas maresias do mar de Moçâmedes e pelas garrôas e lestadas da Baía dos Tigres. Na certidão de óbito vinha mencionada a idade aparente: 88 anos, quando na verdade tinha 74. Prometi, naquele recolhimento, encontrar a melhor forma de lá colocar uma lápide. Como propriedade particular que era, só ao proprietário era concedida a autorização para tal e o proprietário era a minha bisavó Maria Teresa Frota, falecida há muito em Lisboa. Decidi então fazer o pedido por escrito à Câmara Municipal de Olhão e juntar uma fotocópia da página de um livro onde menciona o meu bisavô como pioneiro. E assim fiz. A autorização demorou quatro longos e expectantes meses. O pedido veio, finalmente, deferido. Manuel Joaquim Frota ía ter lápide na sua catacumba por ter sido reconhecido o mérito da sua iniciativa pioneira. A família Frota, nascida em Angola, soube respeitar a memória daquele nosso ascendente comparecendo em grande número às homenagens que lhe foram prestadas. A primeira, a mais restrita, no dia 7 de Outubro de 2000, 113 anos após um sonho africano e 25 anos após a nossa chegada e dispersão por Portugal. A segunda com divulgação a todos os familiares de norte a sul do País. Uma iniciativa ímpar do meu primo Rui e do meu irmão Walter que criaram uma autêntica máquina de divulgação, e no dia 6 de Outubro de 2001, cerca de cem familiares descendentes de Manuel Joaquim Frota, encontraram-se, numa sentida homenagem. As recordações brotaram, nas intervenções de grande qualidade que se seguiram ao almoço, num total de 110 presenças. Recordámos a velha Torre do Tombo onde nasceram e viveram os meus tios e pai, uma prole de 12 irmãos; a praia Amélia onde o meu avô trabalhou na pesca da baleia; as agruras por que passaram os meus avós na Baía dos Tigres devido ao clima hostil e ao isolamento; ao perfil de todos eles, pela vida de rectidão que levavam, desenhado pelo meu primo José Manuel, com a espontaneidade e boa disposição a que nos habituou e a que se deve aos muitos anos na rádio como chefe de produção do Rádio Club de Moçâmedes e como repórter da antena 1 em Portugal, um grande comunicador; as palavras sábias do meu primo Mário Ângelo, homem de grande carácter e elevada cultura, que viajou desde Coimbra e seguiu para Madrid nesse dia para uma conferência, não deixando, por isso, de estar presente. Um envolvente, belo e inesquecivel exercício da memória. Um pensamento foi aflorado e comungado por todos: "quando o passado está presente o exercício da memória é quase um dever". É quase um dever, diria, quando esse passado tem a dignidade do dever cumprido. Outros encontros se sucederam, desta feita em Alcácer do Sal, com um récord de 120 presenças no primeiro lá realizado. Seria memorável e talvez inédito nas famílias portuguesas, um encontro global em Portugal de uma família que espalhou o seu apelido por diversos países do mundo. Muitas foram. A nossa foi uma delas: Portugal, Angola, Brasil, Estados Unidos, Argentina, etc., (sabendo que a de Angola entronca sómente na de Olhão), a exemplo dos Galvão, que têm organizado os seus encontros em França, com um número de presenças que rondam os mil, segundo consta. Um encontro global dos Frotas a realizar-se em Portugal, seria por bem em Alcácer do Sal ou Setúbal, cidades onde moram os pergaminhos do apelido e os portos de onde partiram em demanda das terras brasileiras nos séc. XVI e XVII, onde se fixaram, e onde ainda residem os seus inúmeros descendentes. OBS: A minha avó Felicidade (avó Feliz) é a segunda de pé a contar da esquerda) 
  Come a sopa, senão, vou chamar o Guinguinda! O Guinguinda afinal não metia medo a ninguém, bem-disposto, cantarolando numa algaraviada incontinente, mas alegre, lá andava ele nas voltas das esmolas, minha senhora faz favor, até a Lena Rocha passou a ser Guinguinda também, no Sanzalangola, sinal que ficou nos nossos corações, digo eu. O Guinguida, o Bacia, o Domingos, os nossos “pobrezinhos” de estimação. Calcorreavam as ruas de Moçâmedes e que se saiba não se cruzavam nos caminhos da mendicidade, qual código de conduta que os fazia mover sempre no mesmo sentido, evitando assim passarem dois “pobrezinhos” pela mesma casa no mesmo dia. O Bacia vivia no “Moinho”. Caiado de azul, plantado no deserto, circundado pelo “Hotel”, construção megalómana que nunca passou das paredes levantadas, sem portas e janelas, nem chão nem tecto, apenas as paredes nuas deixadas inacabadas e merda, bué de merda, na acepção da palavra, cagalhões secos, terreno minado de altas coboiadas, jogos de polícias e ladrões, cagatório público dos criados lá de casa, não havia sanitários para os empregados, criados, que caguem no deserto, à volta novos bairros a crescer a oeste, porque a sul nada de novo e aquele cheiro tão próprio de caca seca no imaginário dos cowboys do “Moinho”,que ficou entranhado para sempre. O “Moinho,” impávido, ainda existe, agora meio escondido, como que envergonhado entre paredes novas de outras casas, tamanho foi o progresso, mas lá está ele, o palácio do Bacia, guardador de estórias e segredos daquela malta. Muitas vezes, curiosidade de miúdo, espreitávamos para dentro do seu palácio e imponente, sentado, na sua solidão imensa lá estava o Bacia, calado, a pensar talvez como seria se pudesse também ser polícia ou ladrão no jogo entre os cagalhões do “Hotel”. Ele sabia que estávamos ali a espreitá-lo e sorria. O Domingos, ceguinho, lá ia ele por aquelas ruas na busca do seu pão diário, simpático, batendo com o seu bastão nas paredes e passeios que tão bem conhecia, abrindo caminho no seu vai e vem, uma esmola patrão, minha senhora e conhecia as pessoas, algumas pela geografia, outras pela voz. Já o Cabéças, mestiço aloirado e de olho verde, mal articulava as palavras, cirandava pelo bairro da Facada e pelo Sporting, era exímio atirador de pedras, certeiro, com uma pontaria assustadora, incrível, sua defesa da agressão a que era sujeito pelos miúdos da vizinhança, Cabéçaa, Cabéçaaaa e mais uma cabeça partida, talvez daí a alcunha “Cabéças”. Depois tínhamos o Popey, mordia a língua, quase limpava as fossas nasais com ela e era quem me arranjava as esferas de ferro para as minhas jogatinas com os carolos, bilhas, três buracos, e ai! aos desgraçados dos carolos de vidros dos outros, estilhaçados graças às esferas do Popey. E o Gaduga, que pontapeava pedras e latas e quejandos, tudo o que lhe pudesse parecer uma bola, descalço, aiué meu Gaduga. Mário Tendinha, Luanda 26 de Abril de 2010 (Fotos: in Blog "Moçâmedes minha terra" - foto a cores e foto a preto e branco do Moinho tirada da página do Facebook da Teresa Carneiro)
Conversas do Namibe, aliás de Moçâmedes, aliás de Mossâmedes. A propósito de um tal 40 Raios, lembrei-me do Bode e dos “caminhos marítimos” e de outras coisas que afinal estavam apenas guardadas. Ouvi o meu pai a falar de um tal 40 Raios, uma personagem de Moçâmedes, que tinha uma filha linda e tal e coisa e que era assim chamado porque estava sempre a dizer “cum 40 raios…” e que teria andado para os lados do Caraculo… …e falámos das coisas antigas, ainda Mossâmedes, quem me dera, ruas de terra batida, algumas autênticos areais e o VW a enterrar-se, quando nos ia buscar ao colégio das madres, deserto adentro plantado e nós, quase envergonhados, quando outro carro qualquer por ali passava na soberba complacência de olhares dos outros meninos, coleguinhas, que haviam de nos humilhar no dia seguinte, tamanho era o enterranço. O contrário também se aplicava quando impávidos, passávamos nós por eles, enterrados, naquelas areias já tão distantes no tempo. Na Torre do Tombo, ali mesmo depois da padaria do Esteves e perto da casa onde moraram os meus bisavós Frotas, havia o célebre “morro da sensação”, que era na altura acontecimento de grande entusiasmo quando por lá passávamos, miúdos, no sobe e desce daquelas enormes montanhas que afinal não passavam de 2 pequenos montículos e nos sentíamos assim, senhores do mundo. Do outro lado da cidade, para os lados do Forte de Santa Rita, os famosos “caminhos marítimos” onde apenas os mais afoitos se aventuravam nas suas bicicletas, chamávamos burras, chamávamos xicas, não fosse alguém desviar-se, resvalar, de tão húmido era afinal o carreiro e malhar em cima das piteiras que ladeavam o célebre caminho marítimo. Lembro de contarem, que ao fim do dia, em algumas ruas, no antigamente, se acendiam os candeeiros a petróleo e que alguns “bons rapazes”, ginasticados, os Mários, de Andrade e Tendinha e outros ainda, se penduravam nos ditos e os tombavam, tão boa era a qualidade do tubo que não resistia, bem como a qualidade das intenções e brincadeiras, dos rufias da época. À baliza do Sporting o Bode. O meu pai, que já não vi jogar, para ficar descansado a ver os jogos do Sporting e como fazia parte do clube, sentava-se no banco dos suplentes e punha-me atrás da baliza do Bode, que ia olhando por mim, que distraído brincava por ali, obediente, com uns carrinhos de baquelite comprados na loja do Sr. Jorge, uns jipes Willys cinzentos, com uns policias muito hirtos que eram logo arrancados, quais policias qual quê…e fazia estradinhas naquela areia, ficava todo cheio de pó e pronto para levar uns “berros” quando chegasse a casa, da mãe Tide. Giro, o guarda-redes num jogo de futebol a tomar conta de mim, não fosse eu desaparecer, e ao mesmo tempo tomar atenção à bola, não fosse sofrer um “frango”. Não, o Bode era um grande guarda-redes. Para mim a seguir ao Carlos Gomes, era o melhor. Luanda, Novembro de 2009 Mário Tendinha
1 - Um ouvinte do progama radiofónico Vector (LAC-Antena Comercial) do dia 25/3/10 dizia, que havia PROCEDIMENTOS ASSUSTATIVOS... 2 - Uma das vitimas das últimas enchurradas em Luanda: por intermédio do B.I. que nós não temos, foi levado pelo Caterpilar... 3 - Numa reportagem da Rádio Nacional de Angola, alguém dizia: quando fica mais velho, fica idoso... 
18 fotografias de José Pinto "Tonspi" inspiraram outros tantos poemas de Namibiano Ferreira. Uma combinação perfeita. CARREGAR/CLICAR NO ATTACHMENT Attachment: LUMEN Olhares de Mesu.doc
O CEBOLAS! “ Cebolas”, porque comia sandes de rodelas de celobas! Esse meu primo do coração. Mesmo que não gostasse, nunca o soube e tanto quanto me parece, deixou de as comer há bué de time atrás. Definitivamente não gostava…fazia que gostava e como era do contra, teimoso, furioso e raivoso, até lhe assentava bem esse particular. E julgo que essa prática das sandochas de cebola, se ficou a dever ao tio querido dele, Mário: - este miúdo adora cebola no pão. Nascia assim O Cebolas, comedor assíduo das sandes de cebola. Mário, éramos alguns: - O tio Mário pai do Mário, Mariucas, o tio Mário, meu pai, tio do Cebolas, que também era Mário, o Márito, o Mário “Cababa” de Porto Alexandre que tocava numa banda e jogava à bola, e o Mário, mais novo dos Mários, o Márinho, este pobre escriba, cheio de memórias e intenções, que saiem a débito, a conta gotas, mas enchendo o “razão”. A história das sandes de cebola, não era senão uma de entre muitas do Cebolas. Acabadinho de comprar, o Bule de Chá da avó, de vidro pirex, a fazer furor na época dos idos anos 50, brilhava como se fosse um objecto de culto numa tarde de cacimbo qualquer e as donas noras e parentes e filhas, juntavam-se como sempre à hora do chá, era só aparecer não havia convite prévio, numa algaraviada, pois faziam jus à sua ascendência. Vira-se o tio Mário, para o Cebolas e para que todos os presentes pudessem ouvir: - Este miúdo é capaz de pegar no bule de chá, (de pirex, novidade na época, ia ao fogo directamente e não partia e o cozinheiro dizia que era feitiço) e atirá-lo ao chão sem partir… - Atiro? Perguntou o Cebolas, olhar vivo e matreiro, beiçolas distendidas num largo sorriso. Não digas isso ao miúdo, a avó assustada e a um sinal do tio catrapuz lá foi o bule pirex para o maneta, gritos e risos, confusão, era assim. Um berreiro terrível, eu mato-me, eu atiro-me e o Cebolas pendurado num muro altíssimo (para a época), entre a casa dos avós e o corredor, qual estádio de futebol de tantos Carlos Gomes e Costas Pereira, Peyroteus, Garrinhas e Puskas e a avó e as tias numa aflição e ele vermelho de raiva, as veias no pescoço inchadas, entra o tio Mário, atira-te…e ele não se atirou, esperto a rir à socapa, lá desceu para outro nível mais baixo e daí então atirou-se para o quintal. Faço ideia, não, nem imagino, qual o sabor depois de uma sandes de cebolas, quando para a sossega e para descomprimir das agruras da vida e das raivas, dedo anelar na boca e chuchava…chuchava… O Cebolas era assim, chuchava e acalmava e chuchou tanto que quando um dia apanhou uma infecção na boca, dava o dedo, pagava, para o dedo ser chuchado. O dedo é que tinha o vício de ser chuchado, “ganda” Cebolas. (esta parte é mentira mas bem podia ter sido assim) Luanda, 11 de Janeiro de 2010 Mário Tendinha    
Do Cinema do Tio Manel do Mário da Martinha e da Lilá De repente lembrei-me de um personagem que durante algum tempo povoou o meu imaginário, quando era miúdo e por algum tempo constituiu um autêntico mistério para mim. Penso que se chamava também Mário e era casado com a Martinha, amiga da minha mãe. Todos os Domingos, depois do almoço, fato domingueiro e laço ao pescoço, apinocado pela Dona Tide, senhora minha mãe, lá ia eu na embalagem da descida da Rua 4 de Agosto, rumo a casa do tio Manel. Ao Domingo ia a casa do tio Manel, porque nos outros dias ia a casa da tia Céu, que era a mesma casa, mas ao que ia, era sem dúvida bem diferente. Durante a semana ia lá para me enfiar no mundo da fantasia dos Cavaleiros Andantes, das histórias do Mandrake, Búfalo Bill, do Fantasma, Batman e tantas outras personagens, de tal forma os fiquei a conhecer, que até hoje habitam em mim. Mas ao Domingo ia receber a bênção do tio Manel, que consistia em distribuir, primeiro pelos filhos a semanada e depois por quem lá estivesse, o suficiente para um bilhete de cinema e um sorvete, de preferência, que fosse do Lã, que eram inigualáveis, um sabor que até hoje continua nas papilas gustativas de tantos jovens como eu, tenho a certeza, mesmo que fosse feito com água e corantes. E confesso, que esta rotina tinha um valor extraordinário, pois para além de ver o filme, normalmente as matinés eram uns grandes filmes de “cowboys”, capa e espada, D’Artagnan, Roy Rodgers e companhia limitada, não tinham ainda inventado para o cinema o kung-fu nem tão pouco a guerra das estrelas, mas, dizia, o que era mesmo mais importante era a hora do intervalo, ir à pastelaria, ao lado do cinema comprar o sorvete e esperar para ver a Lilá, a namorada que nunca foi minha, aliás, ainda foi por breves minutos, no dia em que esmurrei o focinho quando andava de bicicleta, lá para os lados dos armazéns do Venâncio, quase no limite da cidade com o deserto, numa parte da estrada que era empedrada…oh como me lembro… tinha uns 7 ou 8 anos e ela aceitou o namoro comigo por pena e por breves minutos…e eu a mandar-lhe bilhetinhos estúpidos e ela nem me ligava, só tinha na altura olhos para o Mário Alberto, outro Mário, meu amigo e já estou a perder-me na conversa… Bem, mas era o cinema que ao Domingo servia para desanuviar das canseiras, naquela época e o sorvete e a visão ou a esperança da visão da bela da Lilá. Pois foi exactamente num desses dias, tão longe no tempo, tão perto na memória, sinal de envelhecimento, talvez mesmo na primeira ou segunda vez que fui à matiné do Cine Moçâmedes, que dei de caras com o Mário da Martinha, estava ele a sair do cinema por uma porta lateral que dava para a rua 4 de Agosto, quando fiquei estático, pregado ao chão, estupefacto, olhos esbugalhados a olhar para ele. Era uma visão, uma revelação, o Mário da Martinha, a sair do cinema por aquela porta que ficava sensivelmente por trás do ecran, pareceu-me que era o actor do filme e ele teria estado mesmo ali atrás da tela, a fazer todas aquelas cenas, era um herói e eu ali a vê-lo, afinal era ele que fazia os filmes e eu parvo a olhar a olhar pregado ao chão e ele a bazar, a ir para casa, para a sua Martinha que até tinha os olhos azuis como a actriz…estava pasmado! Depois veio a desilusão, quando descobri que o Mário da Martinha de olhos loirinhos, era afinal o projeccionista, empregado do Eurico, o dono do Cinema e que não tinha um braço. Mas continuei a ir ao cinema, porque não falhava ao Domingo a visita ao tio Manel … e a sonhar com a Lilá. Luanda, 8 de Janeiro de 2010 Mário Tendinha
Em greve de fome há 24 dias no aeroporto da ilha de Lanzarote, Espanha. Vítor Nogueira, porta-voz da Amnistia Internacional - Portugal, disse que a situação de Aminetu Haidar é «complicada», uma vez que esta cidadã do Sara Ocidental «tem uma úlcera e uma anemia», pelo que está em «grave risco» de vida. Aminetu Haidar foi detida no aeroporto de El Aaiún, a 13 de Novembro, quando regressava de Nova Iorque, onde recebeu o prémio «Coragem 2009» da Fundação norte-americana Train. De acordo com a Amnistia Internacional, a activista foi submetida a um interrogatório de mais de 24 horas, sem direito a advogado, tendo depois a polícia marroquina apreendido os seus documentos. Aminetu Haidar foi enviada de avião para Lanzarote, Espanha, contra a sua vontade, e com o consentimento do governo espanhol, que agora não permite o seu regresso ao Sara Ocidental por não ter documentação, segundo informações da Amnistia Internacional. »Isto é uma violação dos direitos humanos. O governo marroquino não lhe pode tirar os documentos, dizendo que ela renunciou à nacionalidade marroquina porque ela é uma activista pró-sariana», afirmou Vítor Nogueira. O porta-voz da Amnistia Internacional entende que a resolução deste caso «passa pelo governo espanhol» porque Aminetu Haidar está em território espanhol e agora sem documentação, pelo que fica «condenada ao exílio sem direito a julgamento». Jorge Teixeira Lopes, da Plataforma Internacional de Juristas por Timor-Leste, que considera que o problema da independência do Sara Ocidental é «perfeitamente decalcável» do caso de Timor-Leste, recordou que «as Nações Unidas já determinaram que se fizesse um referendo à população do Sara Ocidental mas até agora ainda não foi realizado porque Marrocos se opõe».
O João Pignatelli é o Adido Cultural da Embaixada de Portugal e o Director do Instituto Camões em Luanda, onde se realizou a exposição "Ngola Mirrors". Ele foi sem dúvida, desde o início deste projecto, um entusiasta e teve um papel preponderante na sua concretização. A propósito de um email que recebi dele e que aqui deixo "postado", aproveito para lhe agradecer publicamente, por todo o seu apoio, sem o qual não poderíamos ter alcançado a excelência na organização desta exposição. Muito obrigado João. "http://www.opais.net/pt/revista/?det=6098&mid=281# Caro Mário, Obrigado pelo link, mais uma vez parabéns, gostaria de lhe dizer que foi uma exposição que meu deu uma particular satisfação ajudar a realizar, um projecto arrojado e que ao inicio parecia uma ideia bastante abstracta mas que no finou se tornou bastante real e próxima do que vemos e sentimos todos os dias ao passear por Luanda . O publico tem aderido e as referencias tem sido sempre positivas , esta é a melhor tradução do que é uma boa exposição. Abraço João Pignatelli"
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